sábado, 29 de setembro de 2012

João Paulo, moleque atentado (ou Para quem acha que não existe esquerda e direita)



As pessoas acham que o socialismo é um mundo mágico, país das maravilhas da Alice, e que as pessoas serão boas, belas e verdadeiras, 100% do tempo, vinte e quatro horas por dia, 100% das pessoas nas quatro estações do ano. Não, o socialismo não é a substituição de seres humanos por santos cristãos. A luta entre o capitalismo e o socialismo não é uma luta entre o mal e o bem. Não é a sociedade capitalista do mal contra a sociedade socialista do bem. No capitalismo, os homens convivem com o bem e com o mal, que não são características naturais deles, mas duas possibilidades de qualquer ser humano (inclusive na sociedade socialista). Por isso mesmo, acho necessário resolver alguns mal-entendidos.

Olha só, se você acha que não existe esquerda e direita, ou que essa divisão não deveria existir, vou tentar te ajudar a sair dessa confusão aí: esquerda é quem quer que a sociedade atual se transforme em outra sociedade, direita é quem quer que a atual sociedade permaneça, ou que seja melhorada. Você tem duas possibilidades para discordar que exista esquerda e direita: a primeira é discordar do uso das palavras (neste caso, a sua discordância é chatice, não custa nada você substituir na tua cabeça essas duas palavras por outras duas, que você acha que melhor representem o grupo das pessoas que querem reformar/manter essa sociedade, e o grupo das pessoas que querem acabar com ela e criar outra); a segunda e discordar que esses dois grupos de pessoas existam (e neste caso, você precisa olhar com mais atenção pro mundo ao seu redor, porque a existência dessas duas intenções opostas e inconciliáveis é óbvia, e a realidade pode te provar isso com mais eficiência do que as palavras que eu poderia usar, basta que você olhe para a realidade sem os preconceitos teorico-ideológicos que demonizam a existência destas duas intenções).

Há ainda uma terceira possibilidade, que é você achar que não deveria existir esquerda e direita, e ela também se divide em duas: a primeira possibilidade é você achar que não deveria haver interesses diferentes porque todo mundo deveria querer transformar essa sociedade em outra (e neste caso você é de esquerda, mas é iludido e utópico, porque não vê que há interesses por trás das opiniões de direita que não vão permitir que as pessoas de direita mudem suas opiniões, nem que parem de tentar convencer novas pessoas quanto a elas); e a segunda possibilidade é você achar que não deveria haver interesses diferentes porque todo mundo deveria querer manter a atual sociedade ou reformá-la (e neste caso você é de direita, e está defendendo interesses óbvios de manutenção da atual sociedade, o que explica que você queira que a esquerda não exista).

Percebam que, mais uma vez, não estou dizendo que a esquerda é o bem e a direita é o mal. Não estou falando que a direita tem interesses e que a esquerda é pura e desinteressada. Estou falando de interesses opostos, nem bons nem maus. A esquerda quer acabar com a atual sociedade porque seu funcionamento se sustenta na exploração da maior parte da humanidade, em benefício da menor parte, e há pessoas que acham outras explicações, um pouco diferentes desta, mas que no final de contas, sempre têm a ver com esta explicação, mas ainda assim, querem acabar com a atual sociedade e criar outra. Esse é um interesse, e do outro lado da luta de classes, há outro interesse, que é o interesse da menor parte da humanidade, da outra classe, e que é o interesse de continuar dominando, e explorando a maior parte da humanidade, tirando benefícios daí. Não se trata de um outro mundo, de um paraíso, em que nos livraremos dos pecados mundanos do capitalismo. O capitalismo e o socialismo são duas formas de sociedades diferentes, mas ambas no mesmo mundo. Assim como o feudalismo, por exemplo, não aconteceu em outro mundo. Então a acusação de que os socialistas têm um projeto de reino dos céus não passa de uma piada mal contada.

Perceba que você, que acredita ou não no reino dos céus, pode tanto querer ficar no capitalismo, quanto destruí-lo e construir uma alternativa para ele. Não precisa ser o socialismo, pode ser o país das maravilhas, mas eu acho que construir o país das maravilhas, ou a sociedade descrita por Skinner em Walden II, são alternativas inviáveis. Os socialistas são pessoas que, assim como eu, acham que a única alternativa viável ao capitalismo é o socialismo. E apesar de as instituições religiosas terem um papel de manutenção da sociedade, dentro delas pode haver pessoas com interesses opostos a esse papel, porque o animal humano é um bichinho muito do contraditório!

Mas o socialismo não é algo pronto, os socialistas não sabem exatamente como vai ser, porque se não, não seria uma sociedade, e sim um novo condomínio de luxo. Uma sociedade é construída no presente, e o socialismo vai ser como a humanidade quiser, vai ser cheio de defeitos, porque não vai ser construído por santos, e sim por seres humanos. Se você acha que deve existir uma sociedade sem classes, uma sociedade em que todas e todos trabalhem (de acordo com suas condições e possibilidades), e em que todas e todos tenham acesso aos frutos do trabalho coletivo (de acordo com suas necessidades e seus desejos), mas acha que essa sociedade não é a socialista, eu acho que a gente quer a mesma coisa, e você só tá implicando com o nome. Pode chamar o socialismo de reino das laricas, se você quiser, ignore o nome se o nome é mesmo algo tão importante pra você, mas não se preocupe que não estamos com um projeto pronto de condomínio fechado, onde decidirão por você onde vai ser o seu quarto, o que você vai ter que comer, qual será a sua religião e a sua profissão. Mas fica uma dica: talvez a sua implicância possa não ser só com o nome, e sim também com o excesso de individualismo que você e eu e todos nós engolimos no capitalismo desde que nascemos. Socialismo não é tirania da sociedade contra o indivíduo, mas também não pode ser tirania da individualidade contra as outras individualidades. Socialismo (ou Reino das Laricas) é buscarmos juntos uma mediação entre os interesses sociais e coletivos, para que todas e todos possam ter o que precisam, oferecendo o que podem oferecer para isso dar certo.

Por fim, a luta de classes não é a luta entre as duas únicas classes, sendo uma a classe da direita, e outra a classe da esquerda. As classes são muitas, mas ao longo da história, nas várias sociedades (cada uma com seu formato diferente de luta de classes), sempre teve uma coisa em comum: entre as muitas classes, duas tinham mais condições de disputar a hegemonia (manter a atual sociedade, ou mudá-la e criar outra), e as várias outras classes sempre estarão capitulando (seguindo o caminho tomado por) uma dessas duas classes em luta. No feudalismo, a classe burguesa era a classe contra-hegemônica, e ela não era o bem nem o mal, era a classe revolucionária. Mas depois de vencer essa luta, a classe burguesa se tornou a nova classe hegemônica, no novo sistema social inventado. A única diferença do capitalismo pra todas as outras sociedades anteriores, é que pela primeira vez a classe contra-hegemônica (o trabalho) não é uma outra classe querendo se tornar dominante, e sim uma classe que quer o fim de todas as classes (que não haja mais as classes que trabalham e as que lucram sem trabalhar). A alternativa viável ao capitalismo é uma sociedade sem classes, porque todas e todos seremos uma classe só, a classe trabalhadora. Não é uma questão religiosa, é uma questão material e política, é uma questão de trabalho e de decisão.

Para quem quiser lutar pelo bem, foi em nome dele que Bush invadiu o Iraque, o Afeganistão, o caralho a quatro. Recomendo que desconfiem de qualquer esquerda que ache que o socialismo é um paraíso, ou que ache que a luta de classes é uma luta do bem contra o mal. Há quem ache que a luta de classes é o mal, e que lutar contra ela é o bem. A essas e esses, deixo meus pêsames. E às demais pessoas, só tenho uma coisa a dizer: Viva o Reino das Laricas!

beijinhos de maracujá!

Nenhum comentário:

Postar um comentário